Regularização de Imigrantes na União Europeia em 2026: Guia País a País das Novas Regras

Regularização de Imigrantes na União Europeia em 2026: Guia País a País das Novas Regras
May 18, 2026
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Se você está planejando sua vida na Europa, ou já vive aqui sem documentos, conhecer esse novo cenário não é detalhe técnico. É o que separa um plano viável de uma estratégia que já não existe. Este guia percorre o que mudou em cada um dos principais destinos da imigração brasileira entre 2025 e 2026, e o que essas mudanças significam na prática.

Por que 2025–2026 É um Ponto de Virada na Imigração da União Europeia

Não existe uma única lei europeia endurecendo as regras. O que existe é uma sequência de reformas nacionais, cada qual com sua lógica política, que convergem para o mesmo resultado prático: regularizar-se a partir do território tornou-se significativamente mais difícil. O movimento foi amplo e relativamente silencioso, impulsionado por ciclos políticos domésticos em diversos Estados-Membros, com coalizões restritivas ganhando terreno em todo o continente.

Para nacionais de países terceiros — em especial brasileiros, que constituem um dos maiores grupos recentes de imigração para a UE — o efeito prático é significativo. Caminhos que funcionavam em 2023 deixaram de existir em 2026. Vias que eram estreitas ficaram mais estreitas. E um único país, na contramão da tendência continental, fez o oposto.

Portugal: o Fim da Manifestação de Interesse

Durante anos, Portugal funcionou como uma porta de entrada generosa para brasileiros. Bastava chegar e formalizar a chamada manifestação de interesse para iniciar o processo de residência. Essa via está fechada.

O que mudou

A Lei 61/2025, publicada em 22 de outubro de 2025, extinguiu o instituto da manifestação de interesse. A regra atual exige visto válido obtido em consulado português no país de origem antes de qualquer pedido de residência. Na prática: quem já está em Portugal em situação irregular não tem mais um caminho português pela frente — precisa sair e aplicar de fora.

Impacto no prazo para cidadania

A reforma da Lei da Nacionalidade, promulgada em maio de 2026, também aumentou o prazo de residência para naturalização. Brasileiros e demais nacionais da CPLP agora precisam de 7 anos de residência legal (antes eram 3), com a contagem iniciada da emissão do título de residência, não da data do pedido. Para os demais não-UE, o prazo passou para 10 anos.

França: o Ciclo Retailleau e as Novas Regras de Regularização

A França tradicionalmente oferecia duas vias principais para regularizar a situação irregular: por presença prolongada (admission exceptionnelle au séjour, AES) e por exercício de profissão em escassez (métier en tension). Ambas foram restringidas significativamente em 2025.

Admission exceptionnelle au séjour

A circular Retailleau, publicada em 23 de janeiro de 2025, revogou o regime mais flexível anterior (circular Valls). A regularização por presença prolongada passou a exigir 7 anos de residência ininterrupta, contra os 5 anos anteriores. Os indeferimentos também passaram a ser acompanhados sistematicamente de uma OQTF (obrigação de deixar o território francês).

Métier en tension

A regularização por profissão em escassez sobrevive, mas apenas como dispositivo temporário, vigente até 31 de dezembro de 2026. Exige 3 anos de residência mais 12 meses de trabalho em profissão da lista oficial de escassez. O impacto da nova orientação foi imediato: as regularizações concedidas no primeiro semestre de 2025 caíram aproximadamente 42% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Itália: por que a Regularização Permanente Nunca Existiu

A Itália nunca ofereceu um caminho estruturado de regularização para quem já se encontra em situação irregular no território. O que existe historicamente são as chamadas sanatorie — programas pontuais de anistia, ligados a contextos políticos específicos. A última grande sanatoria foi a do Decreto Rilancio em 2020, restrita aos setores de agricultura e cuidado domiciliar. Desde então, nada permanente.

O Decreto Flussi, que regula as cotas de entrada legal, opera somente para quem aplica a partir do país de origem. Para quem já está dentro da Itália irregularmente, não há, na prática, via consolidada. A Itália, portanto, não é opção a considerar como Plano B para regularização a partir do interior da UE.

Países Baixos: Nenhuma Regularização Geral, Apenas Vias Excepcionais

Os Países Baixos não dispõem de instrumento de regularização in-country comparável ao arraigo espanhol ou ao métier en tension francês. Não existe via geral pela qual uma pessoa em situação irregular possa obter autorização de residência permanecendo no território. O que existe são vias específicas, em regra estreitas, e uma exceção relevante: o reagrupamento com cidadão da UE em exercício de livre circulação.

A via mais favorável é a do familiar de cidadão da UE sob a Diretiva 2004/38/CE. Cônjuge, parceiro registrado, parceiro estável devidamente comprovado, descendente menor de 21 anos ou dependente, e ascendente dependente de cidadão da UE (de qualquer Estado-Membro exceto holandês) que esteja exercendo livre circulação nos Países Baixos pode obter o verblijfsdocument duurzaam verblijf voor burgers van de Unie en hun familieleden. Esse caminho não exige visto MVV prévio, pode ser solicitado a partir do território, e tem requisitos econômicos substancialmente mais favoráveis que o regime nacional holandês. 

Ponto crítico, frequentemente mal compreendido: a Diretiva 2004/38 não se aplica ao familiar estrangeiro de cidadão holandês que reside nos Países Baixos, por força da doutrina das "situações puramente internas" (acórdãos TJUE McCarthy C-434/09 e Dereci C-256/11). Esse caso seguirá o regime nacional holandês, mais restritivo. Há, porém, exceção pela jurisprudência Surinder Singh e Lounes: o cidadão holandês que tenha exercido livre circulação em outro Estado-Membro pode, ao retornar, beneficiar-se da Diretiva.

O Artigo 64 da Vreemdelingenwet permite suspender temporariamente a obrigação de deixar o país por razões médicas graves, quando o estado de saúde torna a viagem inviável ou quando o tratamento necessário não está disponível no país de origem. Tecnicamente, porém, isso não é autorização de residência: é apenas postponement of departure. Apenas após um ano sob esse regime, e mantendo as condições médicas, é possível converter em permit temporário para tratamento médico.

A buitenschuldvergunning (literalmente "permit por não-culpa") destina-se a quem comprovadamente não consegue deixar o território, apesar de ter tentado, por circunstâncias alheias à sua vontade — tipicamente impossibilidade de obter documentos de viagem do país de origem. O ônus probatório exigido pela IND é altíssimo, e a taxa de concessão é baixa.

Há ainda vias para vítimas de violência doméstica, violência de honra e tráfico humano, que recebem permit humanitário temporário (1 ano, renovável), condicionado a denúncia formal e cooperação com a investigação criminal. E, em situações verdadeiramente excepcionais, pode-se invocar o Artigo 8 da CEDH (proteção da vida privada e familiar) — instrumento discricionário, raramente concedido sem fato superveniente robusto.

Para o perfil típico de imigrante brasileiro em situação irregular nos Países Baixos — sem cônjuge ou parceiro cidadão UE em livre circulação, sem doença grave, sem ter passado pelo sistema de asilo — nenhuma dessas vias é, na prática, acessível. O caminho legal continua sendo a saída voluntária e a aplicação consular a partir do Brasil ou de outro país de residência legal.

Alemanha e Bélgica: Portas Estreitas
Alemanha

O instrumento conhecido como Chancen-Aufenthaltsrecht é frequentemente confundido com uma via de regularização ampla. Não é. Ele só se aplica a quem já possui o status de Duldung — tipicamente solicitantes de asilo recusados — com residência mínima contínua de 5 anos desde 2017. Para quem nunca passou pelo sistema de asilo, ele simplesmente não está disponível. A Chancenkarte (Opportunity Card), introduzida em 2024, é um instrumento distinto: trata-se de um visto de entrada aplicado a partir do país de origem, não uma via de regularização.

Bélgica

O famoso Artigo 9bis (regularização humanitária) existe, mas exige a demonstração de circunstâncias verdadeiramente excepcionais — impossibilidade administrativa de obter documentos de viagem, risco de violação dos artigos 3 ou 8 da Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Durante toda a tramitação, o solicitante não tem direito à residência nem ao trabalho. Não é, portanto, um caminho estruturado, e sim um instrumento discricionário — não serve como base para planejar uma estratégia.

Espanha: a Única Porta Aberta na União Europeia

Em meio a esse movimento continental de endurecimento, a Espanha caminhou na direção oposta — e é hoje, em 2026, o país europeu mais realista para regularização in-country de nacionais de países terceiros.

Real Decreto 1155/2024 — o novo sistema de arraigo

O Real Decreto 1155/2024, em vigor desde 20 de maio de 2025, reformulou todo o sistema de arraigo (regularização por enraizamento). Foram criadas cinco modalidades. A mais relevante para a maioria dos perfis é o arraigo sociolaboral, que exige:

  • 2 anos de permanência continuada em território espanhol
  • Contrato de trabalho com jornada mínima de 20 horas semanais
  • Remuneração igual ou superior ao salário mínimo nacional espanhol (SMI)
  • Duração mínima de contrato de 90 dias
Real Decreto 316/2026 — habilitação provisória para trabalho

Em abril de 2026, o Real Decreto 316/2026 acrescentou um avanço prático importante: a partir do momento em que o pedido de arraigo é admitido a trâmite, o solicitante já fica habilitado provisoriamente para trabalhar formalmente. Isso elimina o tempo morto que antes havia entre a solicitação e a regularização efetiva do vínculo laboral.

O caminho para a cidadania europeia pela Espanha

A Espanha mantém seu regime preferencial de cidadania para nacionais de países ibero-americanos: 2 anos de residência legal permitem solicitar a nacionalidade espanhola. Para brasileiros, isso significa um horizonte total de aproximadamente 4 anos entre a chegada na Espanha e a obtenção do passaporte europeu — disparado o caminho mais rápido disponível hoje na União Europeia para quem parte de uma situação irregular.

O que Isso Significa para Quem Planeja a Vida na Europa

O mapa europeu de imigração não-UE em 2026 é muito diferente daquele de 2023. Para quem planeja sair do Brasil (ou de qualquer país terceiro), o caminho mais seguro juridicamente continua sendo obter o visto correto no consulado do país de destino, antes da viagem. Não há atalho, e entrar irregularmente na esperança de regularizar depois é, hoje, mais arriscado do que nunca na maioria dos países.

Para quem já está na Europa sem documentos, qualquer estratégia exige análise cuidadosa, caso a caso, do quadro específico de cada país, do perfil pessoal, dos vínculos familiares e do timing. Em muitos casos, o deslocamento para a Espanha tornou-se o caminho mais viável para a eventual cidadania europeia — mas a mudança precisa ser estruturada com atenção, em especial a saída da situação irregular atual, que precisa ser estritamente voluntária para evitar uma proibição de entrada Schengen-wide.

Não há resposta única que sirva a todos os perfis. O que existe é informação atualizada e estratégia construída caso a caso. No cenário atual, isso vale mais do que nunca.

Perguntas Frequentes
Qual país europeu oferece o caminho mais rápido para a cidadania da UE em 2026?

Para brasileiros e demais nacionais ibero-americanos, a Espanha oferece o caminho mais rápido: aproximadamente 4 anos da chegada em território espanhol até a cidadania, usando a via do arraigo sociolaboral (2 anos de residência para regularizar) seguida de 2 anos de residência legal para o regime preferencial ibero-americano de naturalização.

Ainda dá para se regularizar em Portugal em 2026?

Não. A Lei 61/2025 extinguiu a manifestação de interesse em 22 de outubro de 2025. Os pedidos de residência agora exigem visto válido obtido em consulado português no país de origem. Quem já está em Portugal em situação irregular precisa, na prática, sair e aplicar de fora.

A França ainda permite regularização por métier en tension?

Sim, mas apenas temporariamente. O mecanismo permanece em vigor até 31 de dezembro de 2026, exigindo 3 anos de residência mais 12 meses de trabalho em profissão da lista oficial de escassez. Após essa data, o regime pode não ser renovado em sua forma atual.

O que é o arraigo sociolaboral espanhol?

O arraigo sociolaboral é uma via de regularização criada pelo Real Decreto 1155/2024, em vigor desde maio de 2025. Exige 2 anos de permanência continuada na Espanha mais contrato de trabalho que atenda critérios específicos (mínimo de 20 horas semanais, salário mínimo nacional, duração mínima de 90 dias). Desde abril de 2026, os solicitantes ficam habilitados provisoriamente para trabalhar assim que o pedido é admitido a trâmite.

Quem está em situação irregular nos Países Baixos consegue se regularizar em 2026?

Não a partir do território, salvo em vias específicas: familiar de cidadão UE em livre circulação (Diretiva 2004/38, regime favorável), familiar de nacional holandês (regime nacional mais restritivo, com pedido feito no consulado do país de origem), artigo 64 da Vreemdelingenwet (suspensão de partida por razões médicas graves), buitenschuldvergunning (impossibilidade comprovada de sair sem culpa), vítima de violência doméstica ou tráfico humano (mediante denúncia formal), proteção internacional ou Artigo 8 CEDH. Para o perfil típico sem nenhum desses vínculos, o caminho legal continua sendo a saída voluntária e a aplicação consular a partir do país de origem.

Por que sair voluntariamente da situação irregular é tão importante?

Porque quem é detectado pelas autoridades e formalmente notificado pode receber uma OQTF (na França), um terugkeerbesluit (na Holanda) ou equivalente, acompanhado de inreisverbod — uma proibição de reentrada com efeito em toda a área Schengen, com validade típica de 2 a 5 anos. Isso bloquearia simultaneamente todos os outros caminhos europeus, inclusive a Espanha. A saída voluntária e documentada, antes de qualquer interpelação, é a forma de proteger as opções futuras.

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Hanna Fedalto
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